Testemunho Pinkotober
Senti um caroço e foi assim...
Diana e M.
10/8/20258 min ler


A M, cruzou-se na minha vida e sempre teve um brilho especial. Sempre gostou de cuidar de si mesma, sempre gostou de ser Mulher. A vida prega-nos partidas e a M teve de superar um grande desafio.
Teve a coragem de partilhar connosco a sua história. Porque não acontece só aos outros e os outros... somos nós!
A história da Mulher antes, durante e depois de um frente-a-frente com o ''Safadão'', como ela lhe chama.
Obrigada!
A entrevista:
Acreditamos que existe uma mulher antes e depois do cancro. Consegues descrever quem eras tu antes do diagnóstico?
Efetivamente existe um A.C e D.C, e aqui não falamos de Cristo, falamos mesmo da tão temerosa palavra Cancro. A forma como vejo a vida e como a vivo não se alterou substancialmente, o que se alterou foi a forma como recebo o que a vida me dá, o que se alterou foi a vontade de viver que se tornou ainda mais intensa, e principalmente o relativizar muito as coisas que antes me apoquentavam no dia a dia.
Mas também fiquei mais medrosa em relação à saúde, e a tudo o que possa acontecer ao meu núcleo.
O momento do diagnóstico – Como chegaste ali, os sintomas, exames, etc…?
Eu senti um caroço por cima do mamilo direito em Maio de 2022. Como sempre tive a mama muito fibrosa e me iam aparecendo e desaparecendo, com a menstruação pequenos caroços, pensei que poderia ser o caso e resolvi esperar que me viesse a menstruação nesse mês para verificar o que ia acontecer, (embora tenha ficado uma nuvem em cima da cabeça). Mas o caroço não desapareceu e resolvi pedir ao meu marido que o sentisse também para me dar opinião se achava que era diferente dos outros, no entanto pensei de imediato marcar uma consulta na primeira médica que tivesse vaga, para poder ir fazer os exames. E assim foi.
A médica mandou-me fazer uma eco-mamária e uma ecografia e em 15 dias (porque ela pediu uma médica especifica para realizar os exames) estava a faze-los. Fui sozinha, como vou sempre fazer as minhas rotinas, até porque sabemos que isto pode acontecer a qualquer uma, mas a nós não vai acontecer (pensava eu).
Quando me deitei na marquesa a fazer a ecografia, passado pouco tempo, a médica disse: “Magda, temos aqui uma situação chata que temos que tratar, agora temos dois caminhos, ou eu faço os relatórios e vai à sua médica para ela a encaminhar para uma consulta de Senologia e fazer exames, ou eu posso lhe fazer já a biopsia e depois marca o que lhe falei anteriormente”
Na minha mente ainda meio atordoada não existiu dúvida nenhuma e disse-lhe para fazer de imediato a biopsia.
Ela começou a fazer a preparação, e enquanto isso eu estava num misto de sentimentos, na minha cabeça era:
“e agora, o que vou fazer, isto é mau!” E depois limpava as lágrimas e pensava “isto vai ser benigno e vai ser tranquilo”. Mas quando acabou o procedimento da biopsia eu disse para mim mesma “não podes sair daqui sem certezas, por isso vais chamar os bois pelo nome e fazer a pergunta difícil!!” Sentei-me na marquesa e disse “Dra. posso fazer-lhe uma pergunta?” a médica que já estava virada para o computador a fazer o relatório, imediatamente rodou a cadeira perto de mim “Pode perguntar tudo o que quiser”, “Dra., eu tenho um tumor? Mas pode ser benigno?”, “Não Magda, não é benigno. Por vezes nós temos dúvidas e só com mais exames é que chegamos ao diagnóstico, mas este não deixa qualquer dúvida). Pediu-me para me ir vestir e depois ir ter com ela, e quando cheguei já me tinha marcado uma consulta de senologia e dois tac’s.
Isto aconteceu numa quinta feira e na semana seguinte fiz um Tac abdominal, Tac toráxico, consulta de senologia, mais duas biopsias (uma na mama esquerda e outra na axila direita para procurarem o gânglio sentinela), consulta com o cirurgião plástico.
Na consulta de senologia e com os relatórios da primeira biopsia e dos tac’s, a médica que a partir daí me acompanhou, disse que tinha ali um “safadão”, mas que íamos dar cabo dele, propôs-me fazer logo mastectomia total com reconstrução e possível aproveitamento de mamilo e pele, e daí ter-me encaminhado logo para o cirurgião plástico.
Para ela e de acordo com o que era dado a conhecer através dos exames tirávamos e estávamos despachadas, sem mais chatices. Estávamos a chegar a Agosto e ia tudo de férias, por isso, e porque estava tudo controlado, a cirurgia ficou marcada para dia 16/9/2022. Eu própria fui de férias e foi me dito para alinhar os chacras e vir cheia de energia para uma boa recuperação.
As férias foram das melhores que já tive, diverti-me muito, aproveitei muito e tentei não pensar muito no assunto, ia ter muito tempo para me dedicar a ele.
Como partilhaste, uma notícia tão difícil, com a tua família e amigos?
O diagnóstico é um murro no estomago, mas nunca, em tempo algum, eu perguntei “porquê eu?”. Quando sai da sala as lágrimas não paravam de cair, mas na minha cabeça eu tive de imediato uma certeza “eu não vou morrer disto, eu não vou morrer agora”. Já tinha uma mensagem do meu marido, pois os exames estavam a demorar mais que o habitual, liguei-lhe e fiquei em silêncio, não consegui verbalizar, claro que ele percebeu de imediato, e encontramo-nos em casa. Quando ele chegou, abraçamo-nos e choramos, choramos muito, tivemos em silêncio, abraçados e sozinhos, cada um a lidar com a sua dor.
Porque depois há os filhos, e há os pais, e há todos os que gostam de nós!!!
Logo nesse dia tive que contar à minha filha que foi a primeira pessoa que verbalizou a palavra Cancro, aí foi mais um murro, porque parece que se tornou real. Tinha um café marcado com amigos, e não deixei de ir, eu tinha que enfrentar e por isso não valia a pena adiar. Fiz questão de contar às minhas pessoas pessoalmente, e uns dias depois criei um grupo de WhatsApp com o nome “Safadão” para por as minhas pessoas ao corrente de tudo.
Psicologicamente, receber esta notícia é duro, o que sentiste? O que pensaste?
Chegou Setembro e a preparação para a cirurgia, fiz análises, eletrocardiograma, e uma linfocintigrafia, para marcar o gânglio sentinela que não foi detetado em nenhuma das biopsias.
No dia, e mesmo já na sala da cirurgia, foi definido que o mamilo direito não ia ser aproveitado, pois o mesmo começou a recolher e isso era indício de que poderia estar afetado, assim a cirurgia consistia em fazer uma mastectomia total da mama direita com aproveitamento da pele e reconstituição imediata, fazendo também uma ligeira redução da mama esquerda e repartir o mamilo desta com a da direita. Foi também retirado o gânglio sentinela e os dois mais próximos, e feito de imediato biopsia pois caso estes estivessem infetados era necessário fazer esvaziamento axilar, felizmente não foi necessário.
A recuperação foi pacífica sem grandes dores só desconforto a dormir, um mês de baixa e as duas primeiras semanas sem poder levantar os braços.
Mas o revés veio no dia a seguir à cirurgia, pois o “Safadão” er muito grande, tinha 7,5cm o que fez alterar todo o protocolo, e o que se pensava que ia ficar por ali virou um “tudo incluído” com direito a 4 sessões quinzenais de quimioterapia vermelha (mais agressiva), mais 12 sessões semanais de quimioterapia branca. Depois destas, 18 sessões diárias de radioterapia.
Seguido de 5 a 8 anos de hormonoterapia com Tamoxifeno (um comprimido diário).
A consulta de Oncologia foi sem dúvida a mais difícil, ouvir a palavra quimioterapia foi avassalador, foi o momento mais difícil de todo este processo. Porque até ali só sabia que eu estava doente quem eu queria, eu própria olhava para o espelho e não via doença nenhuma, não tinha adores, fisicamente estava igual. A partir daí tudo ia mudar, a partir daí a doença era visível para mim e para todos.
Foi difícil, a perda do cabelo foi avassaladora, o cabelo sempre foi a minha identidade maior, e a pior coisa que me podiam dizer era, “depois cresce”!!!
Mandei fazer uma peruca, nunca consegui andar de lenço… era ver-me doente, preferia andar careca ou de peruca, e quando o cabelo começou a crescer assim que o pude pintar retirei a peruca e assumi o cabelo em crescimento.
Que práticas ou hábitos te ajudaram a manter o positivismo e ajudaram na recuperação?
Fiz todo o processo de tratamentos a trabalhar, tenho a facilidade de fazer teletrabalho e fui gerindo o trabalho com os tratamentos, tive um apoio gigante da minha entidade patronal, assim que contei no trabalho o diagnostico, foi-me logo dito “primeiro a saúde, o trabalho faz-se”.
No intervalo entre as primeiras 4 sessões de quimioterapia e as seguintes fiz uma viagem de 3 dias em que andei 14Kms por dia, e tentei sempre viver e não sobreviver neste período.
Que apoios tiveste durante todo o processo?
Tive um apoio familiar fantástico e os amigos que são família nunca me largaram a mão. Mas também existem aquelas pessoas que desaparecem, e umas nós agradecemos, porque efetivamente vemos que já tinham cumprido o seu papel, outras ficamos um pouco desiludidas, mas tudo faz parte do crescimento.
Já fazia terapia antes disto acontecer e mantive, aliás mantenho a mesma.
Após o primeiro mês comecei a ser acompanhada por um Osteopata para me ajudar na recuperação física, assim que terminei a radioterapia voltei ao exercício físico, e optei pela natação, pois como entrei na menopausa e tenho imensos afrontamentos, a água ajuda a regular a temperatura do corpo. Quando fiz um ano de termino da radioterapia comecei a fazer exercício com uma PT e comecei a ser acompanhada por uma nutricionista pois os tratamentos e a entrada na menopausa fizeram-me aumentar significativamente de peso e muita resistência na perda do mesmo.
Achas importante associações de apoio? Recorreste a alguma?
Só depois de saber exatamente qual era o meu tipo de cancro e o protocolo que ia seguir é que comecei a ler e acompanhar algumas páginas, pois cada cancro é um cancro, cada organismo reage de forma diferente, mas é sempre bom ir ouvindo outros testemunhos porque existem momentos em que nos achamos extraterrestres. Há dias em que o nosso corpo é equivalente aos arquipélagos, temos as 4 estações todas no mesmo dia 😊
Não há muita informação disponível, e a que há maioritariamente não é portuguesa, embora ache que vai melhorando dia após dia.
Viver com o cancro alterou a tua vida afetiva e seuxal? A relação com o teu parceiro? A tua relação com o teu corpo?
O teu corpo muda, a tua intimidade também, no meu caso não na visão do meu marido, mas na minha.
Nunca tive uma relação muito saudável com o meu corpo, sempre fui mais gordinha e sempre tive muitos complexos.
Havia duas coisas que adorava em mim … as mamas e o cabelo. O cancro tirou-me as duas, o cabelo voltou e vai crescendo, mas as mamas ficaram muito diferentes, perderam a sensibilidade e não as consigo olhar da mesma forma, nem gostar delas.
Com isto veio a menopausa, a secura vaginal, a falta de lubrificação, a líbido foi dar uma volta, não disse o destino nem a duração da viagem. Os afrontamentos são assustadores, e como tive um cancro hormonal, não posso fazer terapia de substituição, só posso tomar produtos naturais, que fazem …. Nada, ou muito pouco. Assim é lidar e indo arranjando estratégias com o parceiro para não deixar morrer a coisa 😊 Umas vezes é mais fácil outras menos, mas faz parte.
Como vês a vida hoje e como olhas para o futuro?
Agora fica o receio da recidiva, pois como eu digo, a primeira vez não sabemos ao que vamos, e no meu caso resolvi enfrentar de frente e não lhe dar hipótese, mas se ele aparecer outra vez? Não se sabe… e não é fácil, são 8 meses em que se vive numa realidade paralela, mesmo que parte da vida fique igual, quando olhas para trás tens a sensação que aquela vida não era a tua.
A vida é muito maravilhosa e vale muito a pena!
Beijocas e obrigada por te lembrares de mim,
M.
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