O Silêncio Gritado das Mulheres
O Testemunho de alguém que culpava a vitíma até ser uma delas....
11/25/20256 min ler


Quando a sociedade finge que não ouve, mas todos sabemos qual é o som.
A violência contra as mulheres não é novidade. É rotina. É eco. É estatística mascarada de tragédia isolada.
Todos os dias, numa casa, num carro, num quarto, na rua, no trabalho, naquela relação “perfeita”, há uma mulher lembrada de que o seu corpo, a sua voz e a sua liberdade continuam a ser tratados como propriedade de alguém. E o mais chocante? Continuamos a encarar isto como um problema doméstico. Quem nunca ouviu: “Entre marido e mulher não se mete a colher”?
Como se o amor justificasse o medo.
Como se o lar não fosse, tantas vezes, o palco do crime.
Quem sofre ou já sofreu violência doméstica sabe como é difícil aceitar que chegou a esse ponto, difícil dizer basta, por vezes até difícil identificar o que está a acontecer. Na violência psicológica, é complicado distinguir a preocupação de controlo. Frases como:
“Larga o telemóvel, eu estou aqui.”
“Não vás com essa roupa tão curta, fica-te mal.”
“Estás mais gordinha, não devias comer isso.”
“Onde estás? Demoras? Com quem estás? Foste sozinha?”
“Não precisas de trabalhar, eu cuido de ti.”
“Não fales tão alto, isso não é bonito.”
“Não saias assim, estás a provocar.”
São alertas de controlo.
A primeira bofetada nunca é a última. O primeiro murro foi na parede; o segundo será em ti.
A nossa convidada passou por muitas destas situações. Não se assume como vítima, nunca se assumiu como inocente. Diz que tem “alguma culpa” na história, mas que nunca imaginou que as coisas chegassem tão longe. “Se tivesse terminado a relação ao primeiro desconforto, não tínhamos chegado tão longe.”
Conta-nos agora de forma resumida o que viveu e o que sentiu:
“As frases acima, hoje, são alertas. Outrora eram sinónimo de preocupação. Hoje reconheço que as bandeiras vermelhas tremem logo que as oiço e admito é difícil perceber onde acaba a preocupação e começa a violência.
Antes via a violência doméstica de fora e perguntava-me: porquê? Que dificuldade existe em perceber que a mulher é maltratada? O que a prende àquela vida? Será que gosta? Sempre questionei muito — e neste tema colocava o ónus do lado da mulher agredida. Não fazia sentido ficar onde nos batem ou nos humilham.
A verdade é que hoje sei explicar.
No início, a relação levou-me para um lugar confortável. Achei mesmo que tinha encontrado o meu príncipe encantado e inconscientemente fiz planos para o futuro. Queria viver o meu conto de fadas. Finalmente a história da princesa da Disney parecia real. Ele tratava-me bem, puxava por mim, fazia-me sentir segura, compreendida e com uma liberdade que nunca tinha tido. O conforto tornou-se rotina. Sorria como nunca. A felicidade estava ali. Avançava sem medo, era ali que me sentia em casa. Ele abria a porta do carro, puxava a cadeira, dizia todos os dias que eu estava bonita, dava-me conselhos “sábios” sobre a vida. Tudo parecia finalmente correr bem… até que…
Vieram as primeiras frases de alerta, os primeiros interrogatórios, as primeiras críticas.
O “estás linda hoje” deu lugar ao “não leves esse vestido, estás mais gorda e fica-te mal”.
O “és tão inteligente” deu lugar ao “não devias falar assim em público, às vezes envergonhas-me”.
“Com quem vais?”, “onde vais?”, “porque?”, tornaram-se rotina.
O álcool passou a chegar a casa com ele. E eu, mesmo assim, continuava a acreditar que era preocupação.
Era “normal” querer saber onde eu jantava, com quem, a que horas chegava. O que deixou de ser normal foram as discussões mal eu entrava em casa. Queria saber tudo: conversas, elogios, comida, bebida, tudo. E quando eu não queria partilhar, começavam as acusações: “Não contas porque estavam lá homens.”
“Foste assim vestida para agradar outros, sua cabra.”
Palavras ditas sem sentido e fora de qualquer contexto.
É aqui que a violência psicológica começa: quando o agressor te tenta isolar do mundo.
Sempre que tinha compromissos de trabalho ou com amigas ele ficava “doente” e eu ficava com ele.
Quando as minhas amigas me convidavam para um programa só de mulheres, ele planeava algo a dois.
Quando eu sugeria jantares com outros casais, dizia que estava cansado.
Chegámos ao ponto de tudo o que eu via na televisão ser criticado. Nada estava bem. A comida, a forma como arrumava a casa, como falava com ele e com os outros, o tempo ao telemóvel, os temas que gostava… tudo era motivo de crítica. Se pegava num livro para ler, começava uma discussão. Porque? Porque eu tinha de servir, tinha de falar sobre os temas de que ele gosta, oferecer carinho, estar feliz porque sim.
E porque não saí?
Porque havia sempre a esperança de voltar ao “felizes para sempre”.
Hoje percebo o erro.
Hoje peço desculpa a todas as mulheres que julguei por não saírem.
A esperança de que era só uma fase, os filhos, o dinheiro, a dependência emocional, tudo isto pesa. E hoje passados alguns meses percebo que é mesmo difícil. Cheia de amor próprio e muito dona de mim passei por isto e nem percebi.
Mas saí.
Saí apenas com a minha roupa.
Reinventei-me.
Com ajuda de amigos, estou a voltar a ser eu.
Mudei tudo na minha vida e assumi o fracasso daquela relação. Fiz as pazes comigo, aceitei que errei em muitas coisas mas também aceitei que não merecia aquilo. Ninguém merece.
Hoje é um tema sensível. Um murro dói no corpo; as palavras abrem feridas na alma e essas demoram muito mais a sarar.”
Este foi o testemunho da nossa convidada. Não se assume como vítima, mas assume que lá esteve. Hoje, livre do pesadelo, segue em frente sem esquecer o que viveu nem como conseguiu sair. Acreditamos que muitas coisas ficaram por dizer mas aceitamos que tudo é um processo e cada mulher deve ser livre de contar o que quer, quando quer e agradecemos muito o testemunho de cada uma.
A violência contra as mulheres é o crime mais antigo e mais banalizado do mundo. Existem tantos tipos e tantas formas que chega a ser assustador: violência física, psicológica, entre mulheres, laboral… tantos tipos que por vezes parece que estamos a ler um menu de um restaurante e não a denunciar um crime.
A violência tem hashtags, campanhas, dias marcados no calendário mas continua a fazer vítimas todos os dias.
E o que faz o mundo? Indigna-se de manhã, esquece à tarde.
A indignação é temporária, um espetáculo de empatia que dura até ao próximo escândalo mediático.
Enquanto isso, as mulheres continuam a desaparecer não só fisicamente, mas emocionalmente.
Combater a violência (contra as mulheres ou de qualquer tipo) não é um gesto bonito.. é um dever.
É mexer no poder, nas leis, nas crenças, nas casas e nas cabeças.
É desconfortável mas absolutamente necessário.
Enquanto o medo for rotina, nenhuma mulher será livre.
E enquanto houver uma mulher calada, nenhuma de nós dormirá tranquila.
A revolução feminina começa onde o silêncio acaba.
Desta vez, que seja o mundo inteiro a ouvir.
A violência psicológica deixa cicatrizes profundas, invisíveis, mas duradouras. Muitas mulheres que passaram por abusos têm dificuldade em confiar, desenvolvem ansiedade, depressão, baixa autoestima.
Podem perder empregos devido ao medo constante.
Relações futuras são afetadas, carregando o trauma e uma bagagem gigante consigo.
Algumas deixam até de acreditar que merecem amor saudável, entrando em ciclos de novas relações abusivas.
A violência psicológica é, portanto, uma forma de destruição lenta, que afeta a saúde mental, o bem-estar e a liberdade das mulheres. Muitas vezes, as vítimas de violência psicológica não se reconhecem como tal até que seja tarde demais, porque a dor não é visível para os outros e a sociedade muitas vezes minimiza o impacto desta violência.
Já a violencia fisica, magoa, deixa o corpo negro, o sangue à vista e muitas vezes, para além da instabilidade psicologica temos uma vida perdida. Infelizmente dezenas e dezenas de mulheres perdem a vida na mão dos seus companheiros, de outros homens ou até de outras mulheres.
Porquê? Ninguém sabe. Mas continuamos indiferentes e tal como a nossa convidada, continuamos a “culpar” a vítima.
Um dia ela, um dia tu.
Não sabemos o dia de amanhã mas hoje é dia de fazer diferente.
Ouve o silêncio que grita!
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