O Olhar de Mulher Cientista e Sonhadora

“Entre a ciência e o sentir: o poder do corpo feminino na cura e no prazer”

11/1/20257 min ler

Entrevista INTENSA: Quando a Ciência Toca o Corpo

A nossa convidada trabalha na área da ciência e na luta contra o cancro da mama. Uma mulher dedicada, sonhadora, objetiva e muito carismática responde às nossas perguntas sem hesitar. Com um olhar ternurento mas muito assertivo. Uma mulher de armas que dedica a sua vida a outras mulheres.

  1. O que te levou a escolher a ciência como caminho de vida — e o que te mantém apaixonada por ela todos os dias?

Sempre fui muito curiosa, adoro descobrir como as coisas funcionam e perceber o “porquê” de tudo. E, ao mesmo tempo, sempre quis fazer algo que tivesse impacto real na vida das pessoas. Foi assim que acabei por me apaixonar pela ciência. Comecei a investigar o cancro por causa de familiares e amigos que vi a sofrer ou morrer da doença, e percebi que era isto que queria fazer. É um caminho desafiante, mas cheio de esperança. Todos os dias acordo com a ideia de que cada pequeno passo pode ajudar a mudar o futuro e, quem sabe, um dia curar milhões de pessoas. É isso que me motiva e me apaixona de verdade.

  1. Ser mulher na ciência ainda é um desafio? Já sentiste que tiveste de “provar o dobro” para ter o mesmo reconhecimento?

Honestamente, nunca senti que tive de me provar por ser mulher. Acho que, felizmente, a ciência já é uma área com muitas mulheres, o que me deixa mesmo orgulhosa! É incrível ver tantas mulheres a fazer coisas incríveis, a liderar laboratórios e a inspirar outras a seguir o mesmo. Estamos num bom caminho.

  1. Há algum momento ou descoberta que te tenha marcado profundamente — que te tenha feito pensar: “é por isto que faço o que faço”?

Sim, sem dúvida! Não foi uma descoberta em si, mas foi um momento que me marcou muito e me fez perceber ainda mais porque escolhi este caminho. Tive a oportunidade de ir a uma conferência com doentes de cancro, onde pude conhecê-las pessoalmente e mostrar um pouco do meu trabalho. Muitas vieram abraçar-me e agradecer o que nós, investigadores, fazemos todos os dias. Foi uma experiência incrível e senti, de verdade, o impacto do nosso trabalho e saí de lá ainda mais motivada a continuar.

  1. Quais são as descobertas mais promissoras na área do cancro da mama neste momento? O que te dá esperança no futuro?

Acho que um dos caminhos mais promissores é continuar a investir na imunoterapia. Ainda há muito para descobrir, mas estamos cada vez mais perto de perceber como o sistema imunitário pode ser usado para combater o cancro de forma mais eficaz. Descobrir mais biomarcadores e entender quais estão associados ao cancro da mama e como podemos “travá-los” a tempo. A ideia é que, no futuro, esses marcadores possam ser detetados logo nos testes iniciais, permitindo diagnósticos mais rápidos e tratamentos mais personalizados.

  1. Quais são as principais alterações biológicas que o corpo de uma mulher atravessa durante o tratamento do cancro da mama — e como podem afetar a sexualidade?

Durante o tratamento do cancro da mama, o corpo da mulher passa por várias mudanças, algumas visíveis, outras não. Os tratamentos podem causar fadiga, alterar a pele, perda do cabelo, diminuição do peso e a sensibilidade das mamas. O que mexe muito com a autoestima e confiança das doentes.

No entanto, também pode afetar sem dúvida a sexualidade. Além da perda de autoestima que já mencionei, há alterações hormonais, como a menopausa precoce provocada por alguns tratamentos que podem reduzir a libido e deixar a vagina mais seca, tornando o sexo desconfortável e alguns tratamentos podem causar dor durante a relação sexual.

É normal sentir que a sexualidade muda, mas não quer dizer que deixa de existir. Há várias formas de se adaptar e continuar a ter intimidade: lubrificantes, fisioterapia pélvica, explorar novas formas de prazer, conversar com profissionais de saúde e conversar com o/a parceiro/a. O mais importante é cuidar de si, sentir-se ouvida e perceber que é possível redescobrir a sexualidade mesmo durante o tratamento.

  1. Falamos muito sobre prevenção e diagnóstico precoce, mas pouco sobre o “depois”. Como é que a sexualidade pode (ou deve) ser parte da conversa durante e após o tratamento?

Falar sobre sexualidade durante e após o tratamento do cancro da mama é tão importante quanto falar sobre prevenção e diagnóstico. Muitas vezes, os efeitos do tratamento mexem com a libido, a intimidade e a autoestima, mas estes temas nem sempre são discutidos.

Na minha opinião, a sexualidade pode ser discutida através de perguntas abertas aos profissionais de saúde sobre efeitos do tratamento, lubrificação, dor ou fisioterapia pélvica, e também mantendo um diálogo honesto com o/a parceiro/a sobre desejos, limites e novas formas de intimidade. Além disso, grupos de apoio ou acompanhamento psicológico podem também ajudar a partilhar experiências e estratégias para lidar com as mudanças. Tratar da sexualidade faz parte do cuidado e da recuperação, permitindo que a mulher se sinta ouvida, segura e capaz de redescobrir a intimidade consigo mesma.

  1. A sexualidade ainda é um tema tabu na medicina. Achas que as mulheres são realmente encorajadas a falar sobre prazer, desejo e intimidade durante os tratamentos?

Muitas mulheres não se sentem completamente à vontade para falar sobre prazer, desejo ou intimidade durante os tratamentos, e os profissionais de saúde nem sempre abordam o assunto de forma proativa. Por isso, é importante criar espaços seguros, seja com médicos, enfermeiros, psicólogos ou grupos de apoio. Falar sobre sexualidade não é apenas normal, é essencial para o bem-estar e para a qualidade de vida durante e após o tratamento. Quanto mais encorajadas se sentirem a expressar dúvidas e preocupações, mais empoderadas estarão para cuidar de si mesmas e da sua intimidade. Mas realmente, não acredito que sejam encorajadas desde início e a maioria das vezes, tem de ser a paciente a dar abertura a esse tema.

  1. O toque pode ser científico e sensual ao mesmo tempo — o que aprendeste, como mulher e cientista, sobre a importância do toque no processo de cura?

O toque é algo mágico porque atua em vários níveis ao mesmo tempo. Como cientista, sei que o contacto físico pode reduzir o stress, libertar hormonas de bem-estar e até fortalecer o sistema imunitário, que são muito importantes na recuperação. Mas, como mulher, sei que o toque tem também um papel sensual, pois transmite cuidado e segurança. No processo de cura, uma pessoa sentir-se tocada pode ser restaurador, ajudando não só o corpo, mas também a autoestima e a intimidade.

  1. Muitas mulheres relatam uma nova relação com o corpo depois do cancro da mama. Achas que é possível reconstruir o desejo e o prazer após tantas transformações físicas e emocionais?

Claro que sim! Sei que muitas mulheres dizem que depois do cancro da mama, o corpo deixa de ser o mesmo e a vontade e desejo podem desaparecer. No entanto, estes podem ser reconstruídos, mas é um processo que exige paciência, autoaceitação e atenção às próprias necessidades. Explorar o corpo de novas maneiras, redescobrir formas de intimidade, conversar com parceiros.

  1. Na tua opinião, qual o papel que os brinquedos sexuais ou a autoexploração podem ter nesta redescoberta do corpo e da sexualidade feminina?

Os brinquedos sexuais e a autoexploração podem ter um papel muito importante na redescoberta do corpo e da sexualidade. Ajudam a conhecer melhor as zonas de prazer, reaprender a sentir o corpo e recuperar confiança. Além disso, ajudam a perceber o que realmente funciona e dá prazer, sem pressão, criando um espaço seguro para explorar e sentir-se bem consigo própria. São uma forma de cuidar de si, ganhar confiança e redescobrir o prazer de forma leve e divertida.

  1. Falamos muito de prevenção física, mas pouco de prevenção emocional. Achas que o prazer também é uma forma de autocuidado e, de certa forma, de prevenção?

Sem dúvida! O prazer é uma forma poderosa de autocuidado. Não é apenas sobre sexualidade, mas sobre estar presente no corpo, sentir-se bem consigo própria. Tirar tempo para explorar o que dá prazer e cuidar das necessidades emocionais pode ajudar a reduzir stress, ansiedade e tensão, funcionando como uma espécie de “prevenção” para a saúde mental e emocional. Cuidar do prazer é cuidar de si!!!

  1. O que é que gostarias que todas as mulheres soubessem sobre o seu corpo — algo que a ciência já sabe, mas que ainda não chegou ao dia a dia delas?

Quero que todas as mulheres saibam que o corpo é muito mais inteligente e resiliente do que pensamos. A ciência prova que ele consegue se adaptar e recuperar, tanto a nível físico como emocional. É importante que cada mulher se explore, converse com médicos e parceiros, descubra o que gosta e se adapte às mudanças. Conhecer o corpo, ouvir os sinais que ele dá e confiar nas próprias sensações dá mais autonomia, ajuda a tomar decisões informadas sobre saúde e bem-estar e permite redescobrir prazer e confiança, mesmo depois de experiências difíceis como o cancro.

  1. E se tivesses de deixar uma mensagem a todas as mulheres que estão a passar por um diagnóstico ou tratamento neste momento, o que lhes dirias?

Não desistam! Vocês são fortes! O mais importante é acreditar que vão superar, pois a motivação é realmente o que ajuda mais ao longo do processo. Não pensem que estão sozinhas NUNCA! Conversem com os parceiros, médicos, grupos de apoio, ou com pessoas de confiança. O processo pode ser longo e com muitos desafios, mas não desistam de vocês mesmas, vocês e o vosso corpo são capazes de tudo! Podem rir, chorar, ter todas as emoções no mesmo dia, mas é normal e faz tudo parte da caminhada. E por favor não tenham medo de falar de sexualidade! É importante continuarem a explorarem-se e a se conhecer novamente, ajuda muito na autoestima!

  1. Se o prazer fosse uma disciplina científica, qual seria a primeira lição?

Primeira lição seria ouvir o próprio corpo. É mesmo essencial percebermos o que sentimos, o que nos dá prazer e o que nos faz sentir bem. Porque cada corpo é diferente, reage de formas distintas e merece ser explorado com curiosidade e sem pressões. O prazer não é apenas físico, envolve emoções, confiança, conexão e bem-estar.

Obrigada por nos dares tanto!