Herança Genética Masculina

Quando ser homem deixa de ser destino e passa a ser escolha

Rita & Convidado

1/20/20269 min ler

Esta página é dedicada às mulheres, todos sabemos, mas é também dedicada a todos os que influenciam a vida das mulheres. A masculinidade está presente nas nossas vidas, seja em relacionamentos amorosos, profissionais, relacionais, etc. A masculinidade tóxica e o machismo são heranças que não magoam só a própria pessoa, magoam famílias, mulheres, homens, crianças. Somos movidos alegremente por tudo o que nos faz feliz, gostamos de ser compreendidos, defendidos e amados de verdade. Pedi a uma pessoa muito especial para dar o seu testemunho, é um homem educado por mulheres mas com a herança machista gravada na mente. Há heranças que não vêm no sangue, nem se escrevem em testamentos. Passam-se em gestos contidos, em silêncios herdados, em exemplos que nunca foram explicados mas sempre foram observados. A masculinidade é uma delas construída geração após geração, mais por repetição do que por reflexão.

Este testemunho é o relato íntimo de um homem que cresceu dentro dessa herança silenciosa: homens que não falavam, emoções reprimidas, força confundida com resistência e silêncio confundido com carácter. Mas é também a história de alguém que, cedo, começou a fissurar esse modelo. Não por rebeldia declarada, mas por atenção, escuta e consciência.

Ao longo destas palavras, viajamos pela infância, pela adolescência, pelas relações e pelos confrontos externos e internos que moldaram um homem que escolheu contrariar o machismo aprendido. Um homem que hoje não compactua com a desvalorização das mulheres, que intervém, que protege, que escuta. Um homem que entende que respeito não é exceção, é base.

Este não é um manifesto. É um espelho. E talvez, para muitos, um ponto de partida.

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“A Luz

que entra pela janela devagar, quase envergonhada, como se tivesse aprendido ao longo dos anos a respeitar o meu ritmo. Desenha um rasto quente no chão, desliza pelos cantos da casa e pousa em mim com a delicadeza de quem não quer interromper nada.

A casa está silenciosa mas esse silêncio não me ameaça.

Sinto-o como um espaço seguro, um abrigo onde posso pousar tudo, todas as versões de mim que sobreviveram à pressa, à culpa e ao medo, sem receio de as ver espalhar-se no chão.

Não sei exatamente quando começou este processo, mas percebo agora que sempre houveram pequenos sinais. Memórias soltas coladas ao corpo, gestos que ficaram suspensos no tempo, pedaços de infância que, sem eu dar por isso, moldaram o homem que tento ser... mesmo sem nunca ter escolhido essa forma.

A Herança

de observar homens que falavam pouco, quase sempre com a mesma postura: rígidos por fora, inflamados por dentro.

A força era silenciosa.

As emoções, comprimidas como roupa enfiada à pressa numa gaveta que nunca chega a fechar.

As falhas, escondidas no fundo de bolsos profundos onde ninguém devia mexer.

Ninguém me disse que eu precisava de ser assim.

Mas esse era o caminho.

E eu segui-o.

Lembro-me de ser miúdo, raspar o joelho na mesa de centro da sala e ficar sentado no chão, imóvel, a tentar engolir o choro que me queimava a garganta.

A minha irmã, pequena demais para entender o mundo e grande demais para me deixar sozinho nele, veio sentar-se ao meu lado.

Não trouxe gelo, nem palavras bonitas.

Trouxe apenas uma pergunta simples e humana:

"Mano?"

E depois veio o meu pai.

Com o odor familiar do whisky, entranhado na roupa e no gesto.

Olhou para a pequena humanidade daquele momento e continuou para o escritório.

Sentir não servia de muito.

Mas sim, aguentar.

E aguentei.

A adolescência trouxe outra armadilha:

O irmão exemplar.

O rapaz responsável.

O jovem que era sempre puxado para o centro das comparações familiares:

"Porque não seguem o exemplo do vosso irmão?"

Soava a elogio, mas era uma corrente.

Soava a orgulho, mas era cobrança.

Soava a honra, mas era prisão.

Não percebi na altura o quanto essa herança silenciosa moldaria o que veio depois, uma insegurança que se vestiu de ansiedade, ciúme, controlo, aquela fome infantil de me sentir suficiente através dos olhos dos outros.

O Primeiro Confronto com o Feminino

não me chegou por teorias nem discursos intelectuais.

Chegou-me pela adolescência crua, hormonal, transbordante.

Chegou através da minha primeira namorada: a descoberta do corpo, do desejo, da vulnerabilidade, do espanto de sermos dois miúdos a aprenderem uma linguagem nova sem gramática.

Mas a grande aprendizagem não veio da cama.

Veio da casa dela.

Três mulheres, cada uma com a sua vibração, o seu território emocional próprio, uma presença que se sentia mesmo quando nenhuma dizia uma palavra.

E um pai que ocupava o centro não por sabedoria, não por bondade, mas por uma

necessidade constante de alimentar um ego frágil, tão comum nos homens daquela geração.

Ele falava alto.

Decidia.

Enchia a sala com a sua sombra.

E elas orbitavam à volta dessa sombra, não por submissão, mas por pura sobrevivência emocional.

Na altura, eu não percebi nada disto conscientemente.

Não formulei ideias, não tirei conclusões, não tive epifanias.

Mas ficou tudo gravado como uma máquina que ganhou consciência de si próprio, não mais só a recolher dados, mas a processar padrões que só muito mais tarde faria sentido interpretar.

Eu observava intimidado: a autoridade, o dele, a forma como elas seguravam o lar inteiro enquanto o deixavam acreditar que era ele quem o sustentava.

Só anos depois entendi que ali tinham começado a formar-se

as primeiras fissuras na minha visão rígida do masculino.

E o masculino, afinal, nem sempre era firme muitas vezes era apenas medo em pose de força, a pedir palco para não ter de se ver ao espelho.

Relações, Posse e o Silêncio

que durante muito tempo confundi com amor, como um miúdo que aperta demasiado um pássaro nas mãos porque tem medo que ele voe.

E confundi posse com segurança.

E segurança com controlo.

Essa teia começou a formar-se muito antes de eu saber o que era amor.

Era o reflexo do miúdo que nunca se sentiu realmente visto.

Do adolescente transformado em espelho de expectativas que nunca escolheu.

Do jovem adulto que acreditava que, se não fosse impecável, seria deixado para trás como tantas coisas que vi serem deixadas.

O início da idade adulta trouxe experiências que me viraram do avesso sem aviso.

A primeira relação aberta foi como empurrar uma porta que eu nem sabia que existia. Senti o corpo leve, a alma inquieta, quase renascida como se estivesse a arrancar, com as próprias mãos, as camadas mais antigas da culpa, das regras invisíveis, dos tabus herdados do cristianismo e de uma cultura que há séculos nos ensina a ter medo do desejo.

E nessa liberdade nova, quase febril, fui tóxico.

Não por maldade mas porque não sabia ainda mover-me sem tropeçar nos meus próprios limites.

Ela calou-se.

Fechou a boca como quem guarda um segredo quente na língua.

E eu, cego na minha inocência arrogante, interpretei esse silêncio como consentimento como quem olha para uma porta fechada e assume que não há ninguém atrás dela.

Só anos mais tarde fui capaz de decifrar a verdade amarga escondida naquele silêncio.

O silêncio dela era dor, uma dor fina, silenciosa, quase sem cheiro daquelas que só se percebe quando já se infiltrou em tudo.

Era insegurança.

Era medo.

Era solidão adormecida ao meu lado, enquanto eu dançava com a minha própria euforia.

E o mais duro de reconhecer é isto:

todas as pistas estavam lá.

Eu é que não sabia ler.

Foi aí que compreendi uma das leis mais silenciosas do mundo:

As pessoas calam-se muito mais do que deviam não porque não saibam falar,

mas porque demasiadas nunca aprenderam a ouvir.

Mas o silêncio mais fundo da minha vida não veio de uma relação.

Vivia em casa.

Sempre viveu.

Eu já era jovem adulto quando a minha namorada começou a ficar muitas noites connosco, soa familiar?

Para mim, era natural, éramos quase parte do mesmo corpo. Mas dentro daquela casa havia tensões que eu não sabia interpretar: o meu padrasto a acumular desconforto como quem acumula lenha molhada, e a minha mãe a absorver tudo, calada, como terra seca que recebe chuva demais.

Até que um dia, quando eu estava a sair, ela deixou cair a frase que ainda hoje se desloca dentro de mim como pedra no fundo de um lago:

"É bom que ela não fique cá hoje.”

A forma como disse aquilo... dura, brusca, quase elástica de tanta tensão.

Foi uma das poucas vezes na minha vida adulta em que chorei de mágoa, daquelas mágoas que não vem dos olhos: vem do estômago, do peito, da memória.

Não foi pela frase.

Foi por saber, naquele segundo exacto, que não era a voz dela. Era a pressão dele a usar o corpo dela como porta-voz.

Com os anos, a luz mudou, e o que antes era confusão tornou-se quase dolorosamente claro.

A minha mãe passou décadas a carregar silêncios que não lhe pertenciam, silêncios que lhe foram sendo colocados nos ombros como sacos de areia, um de cada vez, até se confundir com o próprio corpo dela.

Criou-nos sozinha.

Sustentou "parceiros".

Pagou rendas.

Lavou roupa.

Encheu frigoríficos.

Organizou vidas inteiras enquanto a dela ficava sempre para depois.

E mesmo assim, era sempre o homem ao lado dela que o mundo via como "o homem da casa".

Ela só encontrou a própria liberdade, a verdadeira, tarde.

Quase aos 60 anos.

Mas encontrou.

E nunca se perdeu no caminho.

Ela é prova viva de que o silêncio pode corroer, pode roer a alma como água parada a comer pedra mas também pode ser solo fértil.

Um solo que, quando finalmente recebe luz e coragem, floresce de uma força que já lá estava, escondida, só à espera de espaço.

O silêncio de uma mulher nunca é ausência.

É sempre um pedido.

E a masculinidade só amadurece quando aprendemos a escutar aquilo que nunca foi dito, aquilo que vibra no espaço entre as palavras, aquilo que se sente antes de se ouvir.

Ser Homem Hoje

precisa deixar de ser um verbo de força.

Mas um verbo de consciência.

Escutar antes de reagir.

Perguntar antes de assumir.

Oferecer espaço sem desaparecer.

Amar sem prender.

Não ser perfeito.

Ser presente.

Não confundir ciúme com amor, silêncio com paz, autoridade com segurança.

Ser alguém que sabe dizer "não sei”, que sabe pedir ajuda, que sabe parar sem sentir que falhou por isso.

Amar não é possuir.

Cuidar não é salvar.

Ser forte não é calar.

Ser necessário não é o mesmo que ser escolhido.

A mulher não é responsável pelo teu vazio.

Nenhuma relação sobrevive àquilo que escondes de ti próprio.

No fim, tudo o que realmente importa é conseguires olhar ao espelho e reconhecer alguém que estás a construir, não alguém que estás a representar.

Voltando à Luz

que entra hoje na minha sala, reconheço que não é a mesma de antes.

Não ilumina feridas antigas acompanha-as.

Não expõe o que ainda não resolvi, dá-me espaço para continuar a resolver.

Cresci entre silêncios, máscaras, culpas e versões de mim que nunca escolhi.

Hoje caminho mais leve.

Não porque sei tudo mas porque aceito a incerteza da descoberta.

E talvez seja isso que significa ser homem:

não a rigidez com que tantas vezes nos ensinaram, mas a coragem de continuar a aprender,

mesmo quando dói,

mesmo quando desarma,

mesmo quando nos obriga a recomeçar.

No fim de tudo, percebo que a luz nunca esteve contra mim.

Eu, é que ainda não estava pronto para a ver.”

—-

A herança genética masculina descrita por este homem não é biológica, é cultural, emocional e profundamente humana. Vive nas casas, nas frases não ditas, nos exemplos observados em silêncio. E, como toda a herança, pode ser aceite sem questionar… ou revista, transformada, contrariada.

Este testemunho mostra que é possível interromper ciclos sem negar o passado. Que é possível honrar a história sem repetir os seus erros. Que ser homem não precisa de significar endurecer, calar, dominar ou suportar mas sim escutar, agir, proteger e respeitar.

Num tempo em que tanto se fala de masculinidade, este texto lembra-nos algo essencial: a verdadeira mudança não começa em discursos, começa em consciência. Começa quando um homem decide não permitir que nenhuma mulher seja diminuída, nem pela sua presença, nem pelo seu silêncio.

Este homem não é menos homem porque escuta o silêncio de uma mulher, não é menos homem porque as defende, porque as mima, porque as compreende ou porque as eleva. Este homem não é defensor de todos os comportamentos femininos mas é respeitador de todas as atitudes. Um homem entre os 30 e os 40 anos que percebeu e conseguiu contrariar tudo o que em silêncio lhe foi incutido.

Talvez seja isso que torna esta história tão necessária. Porque ao partilhá-la, não se expõe fragilidade, constrói-se futuro.

A ti meu querido, obrigada por manteres a minha esperança num mundo melhor. Obrigada por me ensinares a olhar para o mundo de forma diferente. Seguir-te e observar-te é um privilégio, é um ensinamento e sem dúvida a certeza de que o teu caminho faz sentido.

Obrigada pela partilha crua e verdadeira, como digo sempre… Se o teu testemunho ajudar 1 pessoa, já valeu a pena.

Intensa