Empoderamento é Cuidar da Mente
Há 15 anos sentei-me num consultório - tinha 12 anos e fui pelo meu pé sem ninguém saber
2/11/20263 min ler


Durante anos venderam-nos a ideia de que empoderamento era salto alto firme, agenda cheia, corpo impecável e orgasmos cinematográficos.
Queres a verdade?
Empoderamento sem saúde mental é apenas exaustão bem maquilhada.
E eu sei do que falo.
Fui a mulher que controlava tudo.
A que sabe as consultas médicas da família, os aniversários, as manias das amigas, as comidas favoritas de cada um.
A que trabalha como se não tivesse “filhos” e criava os “filhos” como se não trabalhasse.
A que segura relações como se fosse terapeuta.
A que sorri como se dormisse oito horas por noite.
Chamam-nos guerreiras. Mas a vida é uma guerra?
Estamos alistadas no exército invisível até ao último suspiro?
Durante muito tempo achei que ser forte era aguentar. Aguentar o cansaço. Aguentar expectativas. Aguentar silêncios. Aguentar heranças emocionais que nem sequer escolhi.
Venho de uma família maioritariamente feminina, mas com três líderes masculinos que ditavam regras como se fossem leis naturais. Mulheres fortes, sim mas condicionadas. Resilientes mas caladas. Ousassem elas dizer alguma contrariedade ao que suas altezas reais, os HOMENS, pudessem ordenar.
E como qualquer herança, eu podia aceitar… ou podia recusar.
Recusar dói, é solitário, é ser olhada de lado, é ser chamada de mais nomes do que o documento de identificação tem… Mas foi a melhor decisão que tomei.
Há 15 anos sentei-me num consultório - tinha 12 anos e fui pelo meu pé sem ninguém saber
Não entrei porque estava “louca”.
Entrei porque estava cansada, perdida, exausta, sem rumo, sem voz, sem saída.
Cansada de padrões que não eram meus. Cansada de tentar controlar tudo sem saber bem o que fazer ou por onde ir. Cansada de viver em modo sobrevivência.
Há 15 anos que faço terapia. Não são 15 anos corridos, já fiz terapia intensiva, já passei meses fora do consultório, já troquei de psicóloga, já voltei, já saí mas sempre com a certeza de que ali eu podia ser eu. Sem filtros, sem medo, sem julgamento, ali é seguro ser eu.
E digo isto com a serenidade de quem viveu o processo: foi o maior acto de empoderamento da minha vida.
A terapia não me tornou perfeita. Tornou-me consciente. E consciência é poder. Poder para escolher melhor, para sair do que me diminui, para não repetir padrões, para educar sem projectar feridas e para olhar para um problema e relativizar.
Saúde mental não é um tema bonito para assinalar num mês do ano.
É a base de tudo.
Uma mente desalinhada contamina relações, maternidade, trabalho, sexualidade, autoestima. Uma mente saudável transforma tudo.
Psicologia não é fraqueza. É responsabilidade emocional.
Louco não é quem pede ajuda. Louco é quem atravessa tormentas e insiste que controla tudo sozinho.
Normalizamos a exaustão, divórcios dolorosos, relações desequilibradas, falar de sexo, mas ainda sussurramos quando alguém diz que anda na psicóloga.
Porquê?
Porque fomos educadas a aguentar.
Saúde mental é dignidade. É qualidade de vida. É alinhamento. É perceber o que depende de mim e largar o que não depende, fazer as pazes com o passado para não sabotar o futuro e escolher leveza.
A terapia ensinou-me algo simples e revolucionário: eu não preciso de ser perfeita para ser suficiente.
Posso gostar do meu olho ligeiramente maior que o outro, aceitar o cabelo branco ou pintá-lo de azul, ouvir funk num dia e música clássica no outro. Posso falhar. Posso mudar de opinião. Posso descansar sem culpa (bem, aqui ainda estamos em processo)
A vida não tem de ser perfeita como no Instagram. Não tem de ser organizada como as histórias que as amigas contam ao jantar.
A vida deve ser leve e equilibrada.
Durante 15 anos aprendi a sentir, a controlar emoções sem as reprimir.
Aprendi que sucesso sem paz mental é apenas barulho.
Falamos de liberdade, de prazer e de igualdade.
Mas digo isto com a certeza de quem viveu o processo:
A saúde mental é a chave do empoderamento feminino.
O mais importante:
Terapia não é um comprimido de ação rápida. Não é um milagre instantâneo.
Não é uma frase motivacional que resolve anos de história. Não é a conversa de café com a amiga que gosta de te ouvir e dá conselhos.
A terapia é evolutiva, é um processo, é desconforto é a consciência de crescer pouco a pouco.Demora o tempo que tiver de demorar não estamos a tratar um sintoma estamos a reorganizar uma vida emocional inteira.
Há sessões leves, sessões difíceis e momentos em que parece que estamos a andar para trás mas não estamos. Estamos a aprofundar.
E hoje posso afirmar, sem romantizar nada: foi o maior e mais seguro investimento que fiz na minha vida.
Mais seguro do que qualquer investimento financeiro.
Empoderamento não é controlar tudo. É saber o que largar.
E quando a cabeça está alinhada, a vida deixa de ser uma guerra passa a ser escolha.
E isso… é liberdade.
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