A Maternidade não é uma obrigação - É uma Escolha

Hoje falamos da opção de não escolher esse caminho.

Rita

11/10/20254 min ler

Conheço muitas mulheres. Algumas são tão minhas que lhes chamo família. Hoje, quase todas são mães — e das boas, daquelas que fazem parecer fácil. Mas nem sempre o quiseram ser. A maternidade não fazia parte dos planos. Tinham relações sólidas, casa, carro, carreira. Tudo no sítio. O que faltava? Nada. Até que o tal “relógio biológico” decidiu tocar o alarme, mas….

Hoje falamos da opção de não escolher esse caminho.
Dizem que ser mãe é o auge da feminilidade. Dizem também que não existe amor maior, nem realização mais pura.

Mas, a quantas de nós, em algum momento da vida, nos perguntaram se queríamos sentir isso?

Desde miúdas, empurram-nos bonecas como se fossem manuais de instruções: “Cuida bem do teu bebé”, dizem, como se o instinto materno viesse no ADN, ao lado do verniz cor-de-rosa e dos saltos altos de brincar.

Por trás desta doçura, esconde-se uma armadilha: a ideia de que todas as mulheres nasceram para cuidar, amar e servir.


Não nascemos!

Dizer “não quero ter filhos” é um murro no estômago para muita gente.
E o pior não são os olhares da tia afastada, com o seu tom arrogante, nem o avô que insiste que eu ainda vou mudar de ideias.
O que irrita mesmo é ouvir frases como:

“Ainda és muito nova.”
“Deixa de ser egoísta.”
“Tens de pensar no teu futuro.”
Ou aquela clássica, vinda de mulheres que já são mães:
“Estás parva? Não sabes nada da vida. Não existe nada melhor do que o amor por um filho.”

Quantas de nós, mulheres com mais de 30 anos, já ouvimos:

“Vais mudar de ideias quando fores mãe.”
“O teu relógio biológico ainda vai despertar.”
“Se não tiveres filhos, o que vai ser de ti?”

Hoje exigimos que as mulheres sejam tudo ao mesmo tempo, mães, donas de casa, esposas e profissionais exemplares mas em momento algum perguntamos o que elas querem da sua vida.

Será que a pergunta “Queres ter filhos?” deve sequer sair da boca de alguém?
Quão íntima pode ser esta questão?
A mulher pode não querer. Pode não conseguir. Pode estar num tratamento. Pode haver tanta coisa… e, na verdade, ninguém tem nada a ver com as suas escolhas.

Não existe nenhum gene que obrigue alguém a desejar filhos.
Existe, sim, uma cultura que teme mulheres demasiado livres — mulheres que trocam o berço por um passaporte carimbado, o “já está na hora de casar” por uma viagem sozinha, e a culpa por um perfume caro e uma noite de sono bem dormida.

Ser mãe é uma escolha.
Não ser mãe também é.
E nenhuma das duas precisa de explicação, muito menos de aprovação.

Quando observo as mulheres-mães, vejo o tal amor incondicional, a proteção, a preocupação…
Mas também vejo cansaço, falta de tempo próprio, uma cabeça que não pára, uma rotina desgastante que se repete, repete e repete.
Entre fraldas, noites mal dormidas, sopas e escolas, lá encontro a mulher, nos seus dez minutos de sossego a tentar reencontrar o seu “eu”.

Não quero isso para mim.
Digo-o com certeza, com a firmeza de quem sempre escreveu o guião da sua vida.
A maternidade é uma escolha e eu escolho não seguir.

Sou menos mulher por isso?

Entretanto, quem decide não ser mãe é alvo de perguntas “preocupadas”:

“E se um dia te arrependeres?”
“E quando envelheceres, quem vai cuidar de ti?”

Como se a maternidade fosse um seguro de vida e não uma escolha íntima.

A mulher sem filhos não é fria, incompleta, egoísta, despreocupada, arrependida ou amargurada e tantos outros adjetivos que já ouvi.
As mulheres que escolhem não seguir o caminho da maternidade são apenas
donas da sua própria história.

A mulher que escolhe não ser mãe não é menos mulher nem menos capaz do que as que são mães.
Essa mulher sem filhos não é mais nem menos, não é mais egoísta por se escolher é apenas uma mulher que decidiu quebrar padrões e escrever uma história menos comum.

Trocar noites em branco por uma maratona de séries.
Trocar biberões ou sopas por uma refeição rápida no sofá.
Trocar a corrida diária entre escola e trabalho por um fim de tarde numa esplanada, com um livro.
Trocar as férias caóticas de agosto por umas boas férias em fevereiro.

Não é luxo. É uma escolha.

Não ser mãe não me faz menos mulher.
Somos todas mulheres, com escolhas diferentes.

E a magia de ser mulher é precisamente isso — poder escolher a própria narrativa e viver a vida que queremos ter.

Tu, mulher que não quer ter filhos, quando te chamarem de egoísta… sorri.
Nada é mais ameaçador do que uma mulher que não deve nada a ninguém, nem um filho, nem uma explicação, nem um pedido de desculpa por existir à sua maneira.

Ser mãe pode ser lindo, transformador, um mergulho profundo no amor.
Mas
não ser mãe também é.

O empoderamento não está na maternidade. Está na autonomia.
Está na mulher que decide no seu tempo, no seu corpo, no seu caminho.

A maternidade não é o auge da feminilidade. É apenas uma das possibilidades.
Ser mãe pode ser empoderamento.
Não ser mãe também.

Que cada mulher escolha o seu próprio caminho: com filhos, sem filhos, com sonhos, com paixões, com liberdade.

Porque ser mulher nunca foi sobre servir a vida foi, e sempre será, sobre vivê-la por inteiro.